«A Origem» apresenta-nos um argumento altamente complexo e original – algo que tem vindo a faltar no cinema desde Matrix, filme com o qual até tem algumas semelhanças – baseado numa ideia extremamente simples: se existisse a habilidade de aceder ao inconsciente e aos sonhos de outras pessoas, de que forma isso seria usado (e abusado)?
É esta a base que leva a genial mente de Christopher Nolan a escrever, dirigir e produzir quase 2h30 de filme, onde qualquer distracção por parte do espectador pode levá-lo a perder o rumo da história, numa encruzilhada que vai deixar os fãs de Ficção Científica colados ao ecrã. E se é um daqueles espectadores que gosta de filmes que desafiem a sua inteligência, que o obriguem a pensar, raciocinar e desvendar labirintos ao mesmo tempo que se diverte, este é o filme perfeito. Aliás, é o filme do ano, um dos melhores deste século e um dos melhores de sempre da história do cinema.
Exagero?
Penso que não mas vamos por partes. Filmado em 2-D, sem os excessos tecnológicos que se têm tornado comuns nos últimos anos, com efeitos especiais de altíssimo nível sem nunca perder a sobriedade com que são apresentados ao espectador (a verdadeira essência do realismo, que aliás está patente desde o primeiro ao último minuto), «A Origem» junta um realizador extremamente competente (Nolan) e com um elenco de luxo e com prestação particularmente inspirada (Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page…), sem esquecer a elevada qualidade da direcção de fotografia (Wally Pfister, pois claro) até à banda sonora (Hans Zimmer, pois claro). Todo o trabalho é de excelência e a integração dos vários elementos em cada cena muito equilibrada.
Mas de que trata mesmo o filme?
Basicamente, uma equipa capaz de “entrar” nos sonhos de outras pessoas, o momento em que a nossa mente está mais vulnerável a “invasões”, para roubar ideias, uma espécie de espionagem ao mais alto nível. Dom Cobb (DiCaprio) é o lider da equipa e o homem que tem esta fabulosa mas igualmente perigosa habilidade, mas depara-se com um último trabalho onde lhe é pedido que faça exactamente o oposto: em vez do roubo de ideias, deve implantar uma na mente de um empresário, levando-o a dissolver o seu império e perder a luta para a concorrência.

A inserção da ideia revela-se bastante mais complexa do que se possa imaginar e, no meio de um labirinto de vários níveis de sonhos, realidades alternativas e mundos paralelos, onde cada acontecimento um tem consequências no outro, o espectador é levado numa viagem onde a noção de realidade e sonho se misturam até se perder a noção do espaço e do tempo. O final do filme, aberto à interpretação livre de cada um, deixa-nos a imaginar e a reflectir sobre vários aspectos da nossa sociedade e realidade, independentemente do que isso signifique ao fim de 150 minutos alucinantes.
No entanto, nenhum filme atinge a perfeição total: na minha opinião, o início do filme pecou por alguma falta de inspiração, tornando-se pouco cativante e não fazendo antever, de forma alguma, o que se segue. É, de resto, o único aspecto negativo que lhe consigo apontar. Por isso se ainda não viu o filme, não desista ao fim dos primeiros minutos, porque a sequência será uma experiência que não esquecerá.
Como surgiu o conceito?
Nolan começou a pensar em algo deste género – entrada na mente das outras pessoas, possíveis consequências, etc – aos 16 anos de idade, mas não materializou a ideia até ao ano de 2001, onde escreveu um guião protótipo de 80 páginas, a que podemos chamar o embrião do filme. Neste guião, Nolan deu ao filme uma componente forte de terror, mas rapidamente se apercebeu que esta ideia era demasiado complexa para se tornar apenas num filme de terror de médio orçamento e, provavelmente, sem posição de relevo no mundo do cinema.
Assim, decidiu “guardar na gaveta” e esperar por uma melhor oportunidade. Assim foi até 2009. Durante esse período, aproveitou para ganhar mais experiência em longas metragens (como os filmes do Batman, em 2005 e 2008). Nolan reescreveu o guião, que já não era mais um “mero” filme de terror mas sim uma obra de arquitectura mental repleta de acção e suspense, onde a mente do espectador é a cena do crime.
O filme é difícil de entender?
Depois de ver «A Origem», li vários comentários acerca da dificuldade em entendê-lo. O filme é de facto complexo e puxa pelo raciocínio constantemente, mas daí até ser difícil de compreender penso que vai uma larga distância. A forma como o argumento está escrito, construído e apresentado, não dá margem para distracções e todas as cenas são claras do ponto de vista do desenrolar da história. Parece-me, sinceramente, que quem não entendeu o filme, deve ter adormecido nos primeiros 10 ou 15 minutos do filme que de facto são pouco inspirados como já referi.
Conclusão

Além de estar nomeado para os Óscares 2011, a realizar no próximo dia 27 de Fevereiro, para as categorias de «Melhor Filme», «Melhor Argumento Original», «Melhor Direcção Artística», «Melhor Fotografia», «Melhores Efeitos Visuais», «Melhor Banda Sonora Original», «Melhor Montagem Sonora» e «Melhor Mistura Sonora» (ufa!), é com toda a certeza um dos melhores filmes que já vi e um dos muito poucos que não me importo de ver novamente. Penso que não necessito de escrever mais nada.








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